{"provider_url": "https://www.al.pi.leg.br", "title": "Dormir para esquecer a fome", "html": "<p style=\"text-align: justify; \">A fome d\u00e1 sono. A fome deixa traumas nas v\u00edtimas para o resto da vida. E, em muitas fam\u00edlias pobres da periferia do Rio de Janeiro, a fome atravessa gera\u00e7\u00f5es.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A fome \u00e9 descrita por algumas m\u00e3es como uma dor f\u00edsica que atinge o est\u00f4mago como um soco. Para outras, ela \u00e9 acompanhada de um sofrimento emocional imensur\u00e1vel quando n\u00e3o conseguem alimentar adequadamente os filhos pequenos ou t\u00eam de engan\u00e1-los com alguma coisa que n\u00e3o seja comida de verdade. Quando o alimento \u00e9 insuficiente em casa, a m\u00e3e deixa de comer para alimentar os pequenos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Essas hist\u00f3rias das mulheres chefes de fam\u00edlia para alimentar e criar os filhos est\u00e3o a apenas 80 quil\u00f4metros do centro do Rio de Janeiro, no segundo estado mais rico do pa\u00eds, no munic\u00edpio de Japeri, onde h\u00e1 bols\u00f5es de pobreza e de fome. O munic\u00edpio tem o pior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da regi\u00e3o metropolitana.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A fome d\u00e1 sono. A fome deixa traumas nas v\u00edtimas para o resto da vida. E, em muitas fam\u00edlias pobres da periferia do Rio de Janeiro, a fome atravessa gera\u00e7\u00f5es.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A fome \u00e9 descrita por algumas m\u00e3es como uma dor f\u00edsica que atinge o est\u00f4mago como um soco. Para outras, ela \u00e9 acompanhada de um sofrimento emocional imensur\u00e1vel quando n\u00e3o conseguem alimentar adequadamente os filhos pequenos ou t\u00eam de engan\u00e1-los com alguma coisa que n\u00e3o seja comida de verdade. Quando o alimento \u00e9 insuficiente em casa, a m\u00e3e deixa de comer para alimentar os pequenos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Essas hist\u00f3rias das mulheres chefes de fam\u00edlia para alimentar e criar os filhos est\u00e3o a apenas 80 quil\u00f4metros do centro do Rio de Janeiro, no segundo estado mais rico do pa\u00eds, no munic\u00edpio de Japeri, onde h\u00e1 bols\u00f5es de pobreza e de fome. O munic\u00edpio tem o pior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da regi\u00e3o metropolitana.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>A precariedade nos servi\u00e7os p\u00fablicos \u00e9 uma rotina em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A mis\u00e9ria \u00e9 agravada pela viol\u00eancia e pelo desemprego. Tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico de drogas \u2013 Amigos dos Amigos, Comando Vermelho e Terceiro Comando \u2013 disputam o controle de territ\u00f3rios, o que dificulta a circula\u00e7\u00e3o e a busca por emprego. Os jornalistas que chegam ao munic\u00edpio s\u00e3o aconselhados a circular com as janelas do carro abertas e com o pisca alerta ligado para que os bandidos n\u00e3o os confundam com a pol\u00edcia ou com integrantes de fac\u00e7\u00f5es rivais.<br />Por causa dessa viol\u00eancia, dois dos sete Centros de Assist\u00eancia Social (Cras) da prefeitura ficaram fechados no segundo semestre de 2018. Os tiroteios ocorrem a qualquer hora do dia ou da noite e nenhum bairro de Japeri \u00e9 considerado seguro. Nem mesmo Engenheiro Pedreira, distrito que concentra a maior parte da popula\u00e7\u00e3o, do com\u00e9rcio e dos servi\u00e7os banc\u00e1rios.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Com uma popula\u00e7\u00e3o de 103 mil habitantes estimada pelo IBGE, Japeri tinha 10.323 benefici\u00e1rios do programa Bolsa Fam\u00edlia em dezembro de 2018. Nossa reportagem localizou mulheres em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza que hoje n\u00e3o recebem o benef\u00edcio por falta de documentos, ou que tiveram o pagamento bloqueado. Segundo o secret\u00e1rio de A\u00e7\u00e3o Social do munic\u00edpio, M\u00e1rcio Rosa, o governo federal suspendeu cerca de 6 mil benef\u00edcios em 2018 porque as fam\u00edlias n\u00e3o atenderam aos requisitos exigidos \u2013 como recadastramento e pesagem das crian\u00e7as \u2013 ou por diverg\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es sobre o rendimento familiar apontada pelo cruzamento dos dados oficiais.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Cadastramento itinerante</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />O secret\u00e1rio considera que o n\u00famero de assistidos \u00e9 muito pequeno diante da pobreza vis\u00edvel nas ruas. Por isso, ele decidiu montar um sistema itinerante para cadastrar a popula\u00e7\u00e3o carente que est\u00e1 fora do programa. \u201cAcreditamos que muitos n\u00e3o se inscrevem por desinforma\u00e7\u00e3o, medo, ou falta de dinheiro para se deslocar at\u00e9 a prefeitura\u201d, disse M\u00e1rcio Rosa. Segundo ele, a prefeitura alugar\u00e1 um \u00f4nibus para percorrer bairros pobres e fazer o cadastramento.<br />Os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia, considerados extremamente pobres, recebem um piso mensal de R$ 89,00. O valor \u00e9 acrescido de R$ 41 por crian\u00e7a (m\u00e1ximo de cinco, de 0 a 15 anos), de R$ 48 por jovem (de 16 a 17 anos, limitado a dois). Para manter o benef\u00edcio nas fam\u00edlias com filhos, \u00e9 preciso comprovar vacina\u00e7\u00e3o, pesagem e medi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as at\u00e9 6 anos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A ajuda da prefeitura de Japeri para amenizar a fome \u00e9 m\u00ednima. A secretaria distribui apenas 600 cestas b\u00e1sicas por ano. O n\u00famero, esclarece o secret\u00e1rio, refere-se \u00e0 quantidade de unidades distribu\u00eddas, e n\u00e3o de fam\u00edlias atendidas. Ou seja, o atendimento n\u00e3o alcan\u00e7a todas as fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Por causa da viol\u00eancia, a prefeitura suspendeu eventos p\u00fablicos para vacina\u00e7\u00e3o, corte de cabelo e servi\u00e7os \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u201cComo vamos colocar funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a popula\u00e7\u00e3o na rua com tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es brigando entre si?\u201d, indagou o secret\u00e1rio. No in\u00edcio da entrevista, ele mostrou no celular \u00e1udios de tiroteios gravados naquela manh\u00e3 e na v\u00e9spera.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>H\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, o sono funciona para escapar da fome</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Dormir \u00e9 um dos artif\u00edcios para ludibriar o est\u00f4mago vazio, diz S\u00f4nia Regina Campos, de 61 anos, ao relatar sua hist\u00f3ria. Nascida no munic\u00edpio vizinho de Mesquita, na Baixada Fluminense, ela tem dez filhos e 14 netos. Abandonou os estudos no terceiro ano do ensino fundamental, como aconteceu com a m\u00e3e dela.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">As semelhan\u00e7as com a m\u00e3e v\u00e3o al\u00e9m: ambas tiveram dez filhos que n\u00e3o conseguiram alimentar adequadamente. O pai dela, alco\u00f3latra, teve v\u00e1rios of\u00edcios. \u201cLembro dos dias sem comida na casa de meus pais. Minha m\u00e3e punha a gente pra dormir para a fome passar, porque a fome d\u00e1 sonol\u00eancia. Isso durou at\u00e9 eu ficar grande. Aos 14 anos, fui morar com minha av\u00f3, porque faltava comida na casa da minha m\u00e3e\u201d, disse.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">S\u00f4nia se casou aos 19 anos, contra a vontade da av\u00f3, e repetiu o drama vivido pela m\u00e3e. O marido vivia de biscates e frequentemente ficava sem trabalho. Ela fazia faxinas para colocar alguma comida na mesa. Mas era insuficiente. \u201cMuitas vezes coloquei meus filhos para dormir para esquecer a fome, como minha m\u00e3e fazia.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela lembra que o marido ficava nervoso quando estava desempregado e n\u00e3o havia o que comer, e descarregava a ira espancando-a. \u201cEu tentava consolar ele, mas ele me batia muito, muito. Batia como se estivesse dando em um homem. At\u00e9 gr\u00e1vida eu apanhava. Tive meu primeiro filho aos 20 anos. Aos 30, j\u00e1 tinha seis.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Para alimentar os filhos, S\u00f4nia catava sobras de legumes nas feiras e alimentos fora da validade descartados pelos supermercados. \u201cGra\u00e7as a Deus, meus filhos nunca adoeceram por causa disso.\u201d Ficou vi\u00fava aos 53 anos e, como o marido n\u00e3o deixou pens\u00e3o, passou a sobreviver de faxinas e de R$ 127 por m\u00eas que recebe do Bolsa Fam\u00edlia.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Hoje, S\u00f4nia mora de aluguel em um pequeno c\u00f4modo no bairro de Engenheiro Pedreira e divide o espa\u00e7o com o filho mais novo. Ela dorme na cama de solteiro e o filho, no ch\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 geladeira nem arm\u00e1rio na casa. H\u00e1 um velho televisor anal\u00f3gico de 14 polegadas e um r\u00e1dio de pilha.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Suas filhas tamb\u00e9m t\u00eam dificuldade para alimentar os filhos. Uma mora em um c\u00f4modo vizinho ao da m\u00e3e, com tr\u00eas crian\u00e7as. Tamb\u00e9m sobrevive do Bolsa Fam\u00edlia e de doa\u00e7\u00f5es dos vizinhos. S\u00f4nia diz que acompanha angustiada a situa\u00e7\u00e3o da filha e dos tr\u00eas netos pequenos. \u201cSei que passam fome l\u00e1, porque ela vem me pedir comida. Mas posso ajudar pouco, porque tamb\u00e9m dependo dos vizinhos.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Angu com mato</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong><br /></strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O faminto transforma mato em alimento, como relata F\u00e1tima Regina dos Santos, de 53 anos, que nasceu e se criou na pobreza, na Baixada Fluminense:<br />\u201cAlimentei meus filhos com maxixe e maracuj\u00e1 do mato, com banana verde, angu com mato [capim] e com talo [haste] de pena de galinha assado no fog\u00e3o a lenha. Passei e ainda passo muita fome. Tem dia que eu queria comer um p\u00e3o, e n\u00e3o posso\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">F\u00e1tima n\u00e3o tem boas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia. Contou que a m\u00e3e era alc\u00f3olatra e se prostitu\u00eda: \u201cMinha inf\u00e2ncia foi muito ruim. Passei fome e vestia roupas de saco\u201d, afirmou. Ela teve seis filhos de dois maridos que n\u00e3o a ajudaram no sustento das crian\u00e7as. Sobrevive com o dinheiro de faxinas ocasionais, com R$ 320 mensais que recebe do Bolsa Fam\u00edlia e com a ajuda de vizinhos que \u00e0s vezes lhe d\u00e3o \u201cuma pontinha de carne\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela mora em uma casa abandonada em uma favela dominada pelo tr\u00e1fico de drogas do bairro S\u00e3o Jorge, cujos propriet\u00e1rios fugiram para escapar da viol\u00eancia. Vive em companhia de uma neta e da filha mais nova, de 14 anos. Contou que outra filha tamb\u00e9m mora em casa abandonada na mesma favela e, assim como ela, cria filhos sem a ajuda dos pais e passa fome com frequ\u00eancia.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Comida de pres\u00eddio</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Quem v\u00ea Luzia Jesus Mendon\u00e7a caminhando pelas ruas do bairro Jardim Belo Horizonte, em Japeri, n\u00e3o imagina a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o em que se encontra. Aos 41 anos, sofre de depress\u00e3o e n\u00e3o possui nenhuma fonte de renda, exceto alguns trocados que obt\u00e9m com a venda de chinelos e perfumes para vizinhos quase t\u00e3o pobres quanto ela.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Tem quatro filhos e vive com dois deles e com um companheiro em uma constru\u00e7\u00e3o inacabada cercada por um matagal, na margem da linha do trem. Do outro lado dos trilhos ficam os pres\u00eddios onde a fam\u00edlia busca diariamente os p\u00e3es para o caf\u00e9 da manh\u00e3 e as sobras das refei\u00e7\u00f5es da guarda.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O filho menor, de 10 anos, \u00e9 quem busca o p\u00e3o. Entre 7h e 8h, o menino desce do morro por uma trilha estreita e escorregadia, atravessa a linha do trem, passa pela Escola Municipal Belo Horizonte, onde estuda, e sobe a ladeira at\u00e9 a entrada da Casa de Cust\u00f3dia Cotrim Melo, que faz parte do complexo penitenci\u00e1rio de Japeri, incluindo os pres\u00eddios Milton Dias e Jo\u00e3o Carlos da Silva.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O filho menor, de 10 anos, \u00e9 quem busca o p\u00e3o. Entre 7h e 8h, o menino desce do morro por uma trilha estreita e escorregadia, atravessa a linha do trem, passa pela Escola Municipal Belo Horizonte, onde estuda, e sobe a ladeira at\u00e9 a entrada da Casa de Cust\u00f3dia Cotrim Melo, que faz parte do complexo penitenci\u00e1rio de Japeri, incluindo os pres\u00eddios Milton Dias e Jo\u00e3o Carlos da Silva.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Segundo Luzia, nem todos os guardas comem a refei\u00e7\u00e3o que \u00e9 servida. Na maioria das vezes, o garoto volta para casa com p\u00e3es e manteiga, mas h\u00e1 dias em que leva tamb\u00e9m guaran\u00e1 ou achocolatado.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O garoto almo\u00e7a na escola e por isso \u00e0 tarde cabe a ela ir ao pres\u00eddio esperar pelas marmitas recusadas pela guarda, que s\u00e3o distribu\u00eddas por volta das 14h. Muitas fam\u00edlias, segundo ela, matam a fome com a comida do pres\u00eddio. A marmita \u2013 com arroz, feij\u00e3o, macarr\u00e3o, farofa e carne \u2013 \u00e9 dividida para o almo\u00e7o e o jantar da fam\u00edlia.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela vive sob medicamentos antidepressivos. \u201cMorei na favela do Jacar\u00e9 [no Rio de Janeiro] quando menina. Vi muitas mortes, muitos tiroteios e fiquei com a cabe\u00e7a ruim\u201d, resumiu. A fam\u00edlia recebe ajuda dos fi\u00e9is do templo da Igreja Assembleia de Deus, que ela frequenta. \u201cTenho ajuda da igreja e do pres\u00eddio. \u00c9 l\u00e1 e c\u00e1\u201d, resume.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Exclu\u00eddas do Bolsa Fam\u00edlia</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Luzia Mendon\u00e7a, que depende da comida do pres\u00eddio para sobreviver, est\u00e1 entre os 6 mil que tiveram o Bolsa Fam\u00edlia suspenso. Desde julho, quando o filho de 15 anos foi morar com o pai e abandonou a escola, ela deixou de receber o benef\u00edcio. A manuten\u00e7\u00e3o do pagamento exige frequ\u00eancia escolar m\u00ednima de 85% at\u00e9 os 15 anos e de 75% dos 16 aos 17 anos. Com a aus\u00eancia da sala de aula, veio a perda da ajuda.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">J\u00e1 Luciene da Costa Lima e seus quatro filhos foram suspensos do programa Bolsa Fam\u00edlia em setembro de 2018. Segundo ela, o governo bloqueou o pagamento mensal de R$ 525 que recebiam porque o cruzamento dos dados de renda mostrou que a filha menor, de 3 anos, passou a receber pens\u00e3o do INSS de um sal\u00e1rio m\u00ednimo em raz\u00e3o da morte do pai, em um acidente de trem.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Sob a \u00f3tica fria dos n\u00fameros, a pens\u00e3o de R$ 950 que a menina passou a receber tirou a fam\u00edlia da situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. Mas a realidade \u00e9 outra. Com a pens\u00e3o da menina, Luciene paga o aluguel da casa, de R$ 250 mensais, e corre para o supermercado para garantir a compra do m\u00eas: 35 quilos de arroz, 8 quilos de feij\u00e3o, oito latas de \u00f3leo, 20 quilos de a\u00e7\u00facar, sete caixas de leite e bastante fub\u00e1 para o angu. N\u00e3o compra caf\u00e9 por economia. A carne entra eventualmente no card\u00e1pio, mas s\u00f3 as partes menos nobres da galinha, que s\u00e3o mais baratas. \u201cAs crian\u00e7as pedem um iogurte, mas n\u00e3o posso dar\u201d, diz.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A casa \u00e9 min\u00fascula \u2013 sala, quarto e cozinha \u2013, mas os c\u00f4modos s\u00e3o limpos e enfeitados com os brinquedos das crian\u00e7as doados por igrejas. Luciene \u00e9 analfabeta. Abandonou a escola no segundo ano do ensino fundamental e s\u00f3 sabe desenhar as letras do pr\u00f3prio nome.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Sob a \u00f3tica fria dos n\u00fameros, a pens\u00e3o de R$ 950 que a menina passou a receber tirou a fam\u00edlia da situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. Mas a realidade \u00e9 outra. Com a pens\u00e3o da menina, Luciene paga o aluguel da casa, de R$ 250 mensais, e corre para o supermercado para garantir a compra do m\u00eas: 35 quilos de arroz, 8 quilos de feij\u00e3o, oito latas de \u00f3leo, 20 quilos de a\u00e7\u00facar, sete caixas de leite e bastante fub\u00e1 para o angu. N\u00e3o compra caf\u00e9 por economia. A carne entra eventualmente no card\u00e1pio, mas s\u00f3 as partes menos nobres da galinha, que s\u00e3o mais baratas. \u201cAs crian\u00e7as pedem um iogurte, mas n\u00e3o posso dar\u201d, diz.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A casa \u00e9 min\u00fascula \u2013 sala, quarto e cozinha \u2013, mas os c\u00f4modos s\u00e3o limpos e enfeitados com os brinquedos das crian\u00e7as doados por igrejas. Luciene \u00e9 analfabeta. Abandonou a escola no segundo ano do ensino fundamental e s\u00f3 sabe desenhar as letras do pr\u00f3prio nome.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Todos s\u00e3o filhos do auxiliar de pedreiro Agnaldo Orlando Silva. Sem emprego fixo, ele vive de \u201cbicos\u201d. O casal separou-se e ela precisou ir \u00e0 Justi\u00e7a para obrig\u00e1-lo a ajudar no sustento dos filhos. Mas a jovem mostra-se resignada com suas duras condi\u00e7\u00f5es de vida. N\u00e3o se queixa do ex-marido omisso e elogia uma tia dele, empregada dom\u00e9stica em Copacabana, que a ajuda com dinheiro e mantimentos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Joice vive com as crian\u00e7as em um \u201cpuxadinho\u201d de dois c\u00f4modos nos fundos da casa da av\u00f3, Maria Ernestina Santos, de 70 anos, ex-empregada dom\u00e9stica que se alfabetizou depois de aposentada. A av\u00f3 diz que sofre ao ver as dificuldades da neta. \u201cEla n\u00e3o me pede nada, mas sei que passa muita dificuldade. Eu a ajudo disfar\u00e7adamente, pra n\u00e3o deix\u00e1-la com vergonha.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Os filhos maiores de Joice estudam na Escola Esp\u00edrita Joanna de Angelis, onde tomam o caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7am e fazem o lanche da tarde. Os menores est\u00e3o em uma creche municipal, onde tamb\u00e9m almo\u00e7am. A casa em que vivem n\u00e3o tem guarda-roupas, geladeira, mesa nem cadeiras. Apenas uma cama de casal e uma de solteiro, um velho arm\u00e1rio e um fog\u00e3o na cozinha. A \u00fanica distra\u00e7\u00e3o na casa \u00e9 uma pequena TV anal\u00f3gica de 14 polegadas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Para sustentar os filhos, Joice se desdobra: faz tr\u00eas faxinas por semana e borda vestidos e bermudas em casa, enquanto os filhos est\u00e3o na escola ou dormindo. Ela presta servi\u00e7os a uma costureira que paga R$ 2 por short bordado. O pastor da igreja que ela frequenta \u00e9 feirante e costuma lhe dar verduras.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela n\u00e3o imaginava assim seu futuro: \u201cPensava que seria muito melhor, mas farei tudo o que puder para que meus filhos tenham uma situa\u00e7\u00e3o melhor que a minha\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Moradores de Japeri recebem ajuda de religiosos</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Na Vila Santa Am\u00e9lia, um dos bairros mais desassistidos de Japeri, a Institui\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Joanna de Angelis mant\u00e9m uma escola com 125 alunos em hor\u00e1rio integral. Fundada em 1980 pela alagoana Terezinha Oliveira Lopes, de 86 anos, \u00e9 um projeto liderado por mulheres. As m\u00e3es dos alunos dedicam um dia do m\u00eas para ajudar na cozinha, limpar e cuidar das instala\u00e7\u00f5es. As salas s\u00e3o arejadas e enfeitadas com flores e cortinas coloridas. \u00c1rvores frut\u00edferas d\u00e3o sombra que amenizam a temperatura. O amplo refeit\u00f3rio \u00e9 usado pelos moradores para festas de casamento e anivers\u00e1rios.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A fundadora nasceu em uma fam\u00edlia de 20 filhos. Eram pobres, mas nunca passaram fome. \u201cSe n\u00e3o fosse a comida daqui, muitos passariam fome\u201d, conta Terezinha.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Os alunos recebem uniforme e material escolar e t\u00eam caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e lanche da tarde. Al\u00e9m das mat\u00e9rias curriculares, aprendem m\u00fasica, inform\u00e1tica e costura. Os custos s\u00e3o bancados por integrantes do Centro Esp\u00edrita Joanna de Angelis, de Copacabana, e por amigos da fundadora. As fam\u00edlias dos alunos contribuem com 1 quilo de alimento por m\u00eas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Terezinha \u00e9 professora aposentada e mora em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, cerca de 100 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia dali. Apesar da idade avan\u00e7ada, enfrenta o calor e os engarrafamentos e vai todos os dias \u00fateis a Japeri. \u201cNunca fui assaltada nem abordada por traficantes. Tampouco recebi ordem de toque de recolher na escola. Sou respeitada por meu trabalho\u201d, diz.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela atribui \u00e0s entidades esp\u00edritas a decis\u00e3o de construir a escola. Tinha recebido dois lotes em heran\u00e7a e foi at\u00e9 l\u00e1 com a inten\u00e7\u00e3o de vend\u00ea-los. Ao ver que n\u00e3o havia nenhuma escola na regi\u00e3o, comprou mais dois lotes. \u201cEsta \u00e9 minha fonte de energia e minha raz\u00e3o de vida\u201d, resume.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Pastoral \u00e9 fonte de alimenta\u00e7\u00e3o para moradores da Baixada</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Toda primeira semana de m\u00eas, o p\u00e1tio da igreja cat\u00f3lica Sagrada Fam\u00edlia, no bairro da Posse, munic\u00edpio de Nova Igua\u00e7u, tamb\u00e9m na Baixada Fluminense, \u00e9 tomado pela algazarra de cerca de 50 crian\u00e7as que s\u00e3o levadas pelas m\u00e3es para serem medidas e pesadas. Ao final, recebem suplementos alimentares e roupas doadas por fi\u00e9is. A equipe da Pastoral da Crian\u00e7a, entidade da Igreja Cat\u00f3lica, conhece as necessidades de cada m\u00e3e e faz o acompanhamento permanente das mais necessitadas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00c9 o caso de Suelen Paulino de Assis, de 24 anos, que teve o quinto filho tr\u00eas dias antes do r\u00e9veillon, uma menina, registrada como Al\u00edcia. Ela mora s\u00f3 com os filhos em uma casa abaixo do n\u00edvel da rua. Quando chove, a \u00e1gua cobre os poucos m\u00f3veis e o fog\u00e3o. M\u00e3e e filhos trazem manchas de escabiose, um tipo de sarna transmitida por cachorros. Eles perderam o benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia em 2017 porque as certid\u00f5es de nascimento e as carteiras de vacina\u00e7\u00e3o foram levadas pela enchente e n\u00e3o providenciaram novos documentos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A hist\u00f3ria de Suelen \u00e9 igual \u00e0 de muitas outras jovens pobres da Baixada Fluminense. Os cinco filhos s\u00e3o de quatro pais diferentes. Ela os cria sozinha, sem ajuda financeira de nenhum deles. Engravidou dos namorados no in\u00edcio dos relacionamentos e foi m\u00e3e pela primeira vez aos 15 anos. Como consegue alimentar os seus filhos? \u201cCom a ajuda dos outros, dou arroz e feij\u00e3o. \u00c0s vezes, as pessoas me d\u00e3o um litro de leite\u201d, conta. Verduras e legumes n\u00e3o fazem parte de nenhuma refei\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Tamb\u00e9m atendidas pela Pastoral, Marcela da Cruz Barbosa, de 25 anos, e Marcela Ferreira da Silva, de 36, vivem igualmente na extrema pobreza. A primeira estudou at\u00e9 o quarto ano do ensino fundamental e mora com o marido e tr\u00eas filhos em um barraco de t\u00e1bua e piso de terra batida. A outra tem cinco filhos e mora na beira de um val\u00e3o, na periferia de Nova Igua\u00e7u.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u201cMeu sonho \u00e9 ter uma casa de tijolos. Mas sou caprichosa e mantenho tudo limpo\u201d, acrescenta, com orgulho, Marcela Barbosa. Ela faz faxinas e o marido recebe R$ 216 por semana em um lava-jato. A renda do casal \u00e9 completada com R$ 350 do Bolsa Fam\u00edlia. Eventualmente, os pais dormem com fome.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A outra Marcela \u00e9 analfabeta, tal como a sua m\u00e3e, que tamb\u00e9m mora na Baixada. \u201cSempre quis estudar e ser cuidadora de idosos, mas minha m\u00e3e n\u00e3o deixou. Ela dizia: se eu n\u00e3o pude ir \u00e0 escola, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o pode.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />A fome d\u00e1 sono. A fome deixa traumas nas v\u00edtimas para o resto da vida. E, em muitas fam\u00edlias pobres da periferia do Rio de Janeiro, a fome atravessa gera\u00e7\u00f5es.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A fome \u00e9 descrita por algumas m\u00e3es como uma dor f\u00edsica que atinge o est\u00f4mago como um soco. Para outras, ela \u00e9 acompanhada de um sofrimento emocional imensur\u00e1vel quando n\u00e3o conseguem alimentar adequadamente os filhos pequenos ou t\u00eam de engan\u00e1-los com alguma coisa que n\u00e3o seja comida de verdade. Quando o alimento \u00e9 insuficiente em casa, a m\u00e3e deixa de comer para alimentar os pequenos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Essas hist\u00f3rias das mulheres chefes de fam\u00edlia para alimentar e criar os filhos est\u00e3o a apenas 80 quil\u00f4metros do centro do Rio de Janeiro, no segundo estado mais rico do pa\u00eds, no munic\u00edpio de Japeri, onde h\u00e1 bols\u00f5es de pobreza e de fome. O munic\u00edpio tem o pior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) da regi\u00e3o metropolitana.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>A precariedade nos servi\u00e7os p\u00fablicos \u00e9 uma rotina em Engenheiro Pedreira, distrito de Japeri</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A mis\u00e9ria \u00e9 agravada pela viol\u00eancia e pelo desemprego. Tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico de drogas \u2013 Amigos dos Amigos, Comando Vermelho e Terceiro Comando \u2013 disputam o controle de territ\u00f3rios, o que dificulta a circula\u00e7\u00e3o e a busca por emprego. Os jornalistas que chegam ao munic\u00edpio s\u00e3o aconselhados a circular com as janelas do carro abertas e com o pisca alerta ligado para que os bandidos n\u00e3o os confundam com a pol\u00edcia ou com integrantes de fac\u00e7\u00f5es rivais.<br />Por causa dessa viol\u00eancia, dois dos sete Centros de Assist\u00eancia Social (Cras) da prefeitura ficaram fechados no segundo semestre de 2018. Os tiroteios ocorrem a qualquer hora do dia ou da noite e nenhum bairro de Japeri \u00e9 considerado seguro. Nem mesmo Engenheiro Pedreira, distrito que concentra a maior parte da popula\u00e7\u00e3o, do com\u00e9rcio e dos servi\u00e7os banc\u00e1rios.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Com uma popula\u00e7\u00e3o de 103 mil habitantes estimada pelo IBGE, Japeri tinha 10.323 benefici\u00e1rios do programa Bolsa Fam\u00edlia em dezembro de 2018. Nossa reportagem localizou mulheres em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza que hoje n\u00e3o recebem o benef\u00edcio por falta de documentos, ou que tiveram o pagamento bloqueado. Segundo o secret\u00e1rio de A\u00e7\u00e3o Social do munic\u00edpio, M\u00e1rcio Rosa, o governo federal suspendeu cerca de 6 mil benef\u00edcios em 2018 porque as fam\u00edlias n\u00e3o atenderam aos requisitos exigidos \u2013 como recadastramento e pesagem das crian\u00e7as \u2013 ou por diverg\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es sobre o rendimento familiar apontada pelo cruzamento dos dados oficiais.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Cadastramento itinerante</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />O secret\u00e1rio considera que o n\u00famero de assistidos \u00e9 muito pequeno diante da pobreza vis\u00edvel nas ruas. Por isso, ele decidiu montar um sistema itinerante para cadastrar a popula\u00e7\u00e3o carente que est\u00e1 fora do programa. \u201cAcreditamos que muitos n\u00e3o se inscrevem por desinforma\u00e7\u00e3o, medo, ou falta de dinheiro para se deslocar at\u00e9 a prefeitura\u201d, disse M\u00e1rcio Rosa. Segundo ele, a prefeitura alugar\u00e1 um \u00f4nibus para percorrer bairros pobres e fazer o cadastramento.<br />Os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia, considerados extremamente pobres, recebem um piso mensal de R$ 89,00. O valor \u00e9 acrescido de R$ 41 por crian\u00e7a (m\u00e1ximo de cinco, de 0 a 15 anos), de R$ 48 por jovem (de 16 a 17 anos, limitado a dois). Para manter o benef\u00edcio nas fam\u00edlias com filhos, \u00e9 preciso comprovar vacina\u00e7\u00e3o, pesagem e medi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as at\u00e9 6 anos.\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />A ajuda da prefeitura de Japeri para amenizar a fome \u00e9 m\u00ednima. A secretaria distribui apenas 600 cestas b\u00e1sicas por ano. O n\u00famero, esclarece o secret\u00e1rio, refere-se \u00e0 quantidade de unidades distribu\u00eddas, e n\u00e3o de fam\u00edlias atendidas. Ou seja, o atendimento n\u00e3o alcan\u00e7a todas as fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Por causa da viol\u00eancia, a prefeitura suspendeu eventos p\u00fablicos para vacina\u00e7\u00e3o, corte de cabelo e servi\u00e7os \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u201cComo vamos colocar funcion\u00e1rios p\u00fablicos e a popula\u00e7\u00e3o na rua com tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es brigando entre si?\u201d, indagou o secret\u00e1rio. No in\u00edcio da entrevista, ele mostrou no celular \u00e1udios de tiroteios gravados naquela manh\u00e3 e na v\u00e9spera.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>H\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, o sono funciona para escapar da fome</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Dormir \u00e9 um dos artif\u00edcios para ludibriar o est\u00f4mago vazio, diz S\u00f4nia Regina Campos, de 61 anos, ao relatar sua hist\u00f3ria. Nascida no munic\u00edpio vizinho de Mesquita, na Baixada Fluminense, ela tem dez filhos e 14 netos. Abandonou os estudos no terceiro ano do ensino fundamental, como aconteceu com a m\u00e3e dela.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">As semelhan\u00e7as com a m\u00e3e v\u00e3o al\u00e9m: ambas tiveram dez filhos que n\u00e3o conseguiram alimentar adequadamente. O pai dela, alco\u00f3latra, teve v\u00e1rios of\u00edcios. \u201cLembro dos dias sem comida na casa de meus pais. Minha m\u00e3e punha a gente pra dormir para a fome passar, porque a fome d\u00e1 sonol\u00eancia. Isso durou at\u00e9 eu ficar grande. Aos 14 anos, fui morar com minha av\u00f3, porque faltava comida na casa da minha m\u00e3e\u201d, disse.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br /><strong>S\u00f4nia Regina Campos: \u201cMuitas vezes coloquei meus filhos para dormir para esquecer a fome, como minha m\u00e3e fazia\u201d</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />S\u00f4nia se casou aos 19 anos, contra a vontade da av\u00f3, e repetiu o drama vivido pela m\u00e3e. O marido vivia de biscates e frequentemente ficava sem trabalho. Ela fazia faxinas para colocar alguma comida na mesa. Mas era insuficiente. \u201cMuitas vezes coloquei meus filhos para dormir para esquecer a fome, como minha m\u00e3e fazia.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela lembra que o marido ficava nervoso quando estava desempregado e n\u00e3o havia o que comer, e descarregava a ira espancando-a. \u201cEu tentava consolar ele, mas ele me batia muito, muito. Batia como se estivesse dando em um homem. At\u00e9 gr\u00e1vida eu apanhava. Tive meu primeiro filho aos 20 anos. Aos 30, j\u00e1 tinha seis.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Para alimentar os filhos, S\u00f4nia catava sobras de legumes nas feiras e alimentos fora da validade descartados pelos supermercados. \u201cGra\u00e7as a Deus, meus filhos nunca adoeceram por causa disso.\u201d Ficou vi\u00fava aos 53 anos e, como o marido n\u00e3o deixou pens\u00e3o, passou a sobreviver de faxinas e de R$ 127 por m\u00eas que recebe do Bolsa Fam\u00edlia.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Hoje, S\u00f4nia mora de aluguel em um pequeno c\u00f4modo no bairro de Engenheiro Pedreira e divide o espa\u00e7o com o filho mais novo. Ela dorme na cama de solteiro e o filho, no ch\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 geladeira nem arm\u00e1rio na casa. H\u00e1 um velho televisor anal\u00f3gico de 14 polegadas e um r\u00e1dio de pilha.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Suas filhas tamb\u00e9m t\u00eam dificuldade para alimentar os filhos. Uma mora em um c\u00f4modo vizinho ao da m\u00e3e, com tr\u00eas crian\u00e7as. Tamb\u00e9m sobrevive do Bolsa Fam\u00edlia e de doa\u00e7\u00f5es dos vizinhos. S\u00f4nia diz que acompanha angustiada a situa\u00e7\u00e3o da filha e dos tr\u00eas netos pequenos. \u201cSei que passam fome l\u00e1, porque ela vem me pedir comida. Mas posso ajudar pouco, porque tamb\u00e9m dependo dos vizinhos.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Pesagem do Bolsa Fam\u00edlia no posto de sa\u00fade em Japeri</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Angu com mato</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />O faminto transforma mato em alimento, como relata F\u00e1tima Regina dos Santos, de 53 anos, que nasceu e se criou na pobreza, na Baixada Fluminense:<br />\u201cAlimentei meus filhos com maxixe e maracuj\u00e1 do mato, com banana verde, angu com mato [capim] e com talo [haste] de pena de galinha assado no fog\u00e3o a lenha. Passei e ainda passo muita fome. Tem dia que eu queria comer um p\u00e3o, e n\u00e3o posso\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">F\u00e1tima n\u00e3o tem boas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia. Contou que a m\u00e3e era alc\u00f3olatra e se prostitu\u00eda: \u201cMinha inf\u00e2ncia foi muito ruim. Passei fome e vestia roupas de saco\u201d, afirmou. Ela teve seis filhos de dois maridos que n\u00e3o a ajudaram no sustento das crian\u00e7as. Sobrevive com o dinheiro de faxinas ocasionais, com R$ 320 mensais que recebe do Bolsa Fam\u00edlia e com a ajuda de vizinhos que \u00e0s vezes lhe d\u00e3o \u201cuma pontinha de carne\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Comida de pres\u00eddio</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Quem v\u00ea Luzia Jesus Mendon\u00e7a caminhando pelas ruas do bairro Jardim Belo Horizonte, em Japeri, n\u00e3o imagina a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o em que se encontra. Aos 41 anos, sofre de depress\u00e3o e n\u00e3o possui nenhuma fonte de renda, exceto alguns trocados que obt\u00e9m com a venda de chinelos e perfumes para vizinhos quase t\u00e3o pobres quanto ela.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Luzia Jesus Mendon\u00e7a busca todos os dias alimentos que sobram do pres\u00eddio em Japeri</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Tem quatro filhos e vive com dois deles e com um companheiro em uma constru\u00e7\u00e3o inacabada cercada por um matagal, na margem da linha do trem. Do outro lado dos trilhos ficam os pres\u00eddios onde a fam\u00edlia busca diariamente os p\u00e3es para o caf\u00e9 da manh\u00e3 e as sobras das refei\u00e7\u00f5es da guarda.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O filho menor, de 10 anos, \u00e9 quem busca o p\u00e3o. Entre 7h e 8h, o menino desce do morro por uma trilha estreita e escorregadia, atravessa a linha do trem, passa pela Escola Municipal Belo Horizonte, onde estuda, e sobe a ladeira at\u00e9 a entrada da Casa de Cust\u00f3dia Cotrim Melo, que faz parte do complexo penitenci\u00e1rio de Japeri, incluindo os pres\u00eddios Milton Dias e Jo\u00e3o Carlos da Silva.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O filho menor, de 10 anos, \u00e9 quem busca o p\u00e3o. Entre 7h e 8h, o menino desce do morro por uma trilha estreita e escorregadia, atravessa a linha do trem, passa pela Escola Municipal Belo Horizonte, onde estuda, e sobe a ladeira at\u00e9 a entrada da Casa de Cust\u00f3dia Cotrim Melo, que faz parte do complexo penitenci\u00e1rio de Japeri, incluindo os pres\u00eddios Milton Dias e Jo\u00e3o Carlos da Silva.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Segundo Luzia, nem todos os guardas comem a refei\u00e7\u00e3o que \u00e9 servida. Na maioria das vezes, o garoto volta para casa com p\u00e3es e manteiga, mas h\u00e1 dias em que leva tamb\u00e9m guaran\u00e1 ou achocolatado.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">O garoto almo\u00e7a na escola e por isso \u00e0 tarde cabe a ela ir ao pres\u00eddio esperar pelas marmitas recusadas pela guarda, que s\u00e3o distribu\u00eddas por volta das 14h. Muitas fam\u00edlias, segundo ela, matam a fome com a comida do pres\u00eddio. A marmita \u2013 com arroz, feij\u00e3o, macarr\u00e3o, farofa e carne \u2013 \u00e9 dividida para o almo\u00e7o e o jantar da fam\u00edlia.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela vive sob medicamentos antidepressivos. \u201cMorei na favela do Jacar\u00e9 [no Rio de Janeiro] quando menina. Vi muitas mortes, muitos tiroteios e fiquei com a cabe\u00e7a ruim\u201d, resumiu. A fam\u00edlia recebe ajuda dos fi\u00e9is do templo da Igreja Assembleia de Deus, que ela frequenta. \u201cTenho ajuda da igreja e do pres\u00eddio. \u00c9 l\u00e1 e c\u00e1\u201d, resume.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Exclu\u00eddas do Bolsa Fam\u00edlia</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Luzia Mendon\u00e7a, que depende da comida do pres\u00eddio para sobreviver, est\u00e1 entre os 6 mil que tiveram o Bolsa Fam\u00edlia suspenso. Desde julho, quando o filho de 15 anos foi morar com o pai e abandonou a escola, ela deixou de receber o benef\u00edcio. A manuten\u00e7\u00e3o do pagamento exige frequ\u00eancia escolar m\u00ednima de 85% at\u00e9 os 15 anos e de 75% dos 16 aos 17 anos. Com a aus\u00eancia da sala de aula, veio a perda da ajuda.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">J\u00e1 Luciene da Costa Lima e seus quatro filhos foram suspensos do programa Bolsa Fam\u00edlia em setembro de 2018. Segundo ela, o governo bloqueou o pagamento mensal de R$ 525 que recebiam porque o cruzamento dos dados de renda mostrou que a filha menor, de 3 anos, passou a receber pens\u00e3o do INSS de um sal\u00e1rio m\u00ednimo em raz\u00e3o da morte do pai, em um acidente de trem.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Luciene da Costa Lima, analfabeta, luta para ter alimento no prato todos os dias</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Sob a \u00f3tica fria dos n\u00fameros, a pens\u00e3o de R$ 950 que a menina passou a receber tirou a fam\u00edlia da situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. Mas a realidade \u00e9 outra. Com a pens\u00e3o da menina, Luciene paga o aluguel da casa, de R$ 250 mensais, e corre para o supermercado para garantir a compra do m\u00eas: 35 quilos de arroz, 8 quilos de feij\u00e3o, oito latas de \u00f3leo, 20 quilos de a\u00e7\u00facar, sete caixas de leite e bastante fub\u00e1 para o angu. N\u00e3o compra caf\u00e9 por economia. A carne entra eventualmente no card\u00e1pio, mas s\u00f3 as partes menos nobres da galinha, que s\u00e3o mais baratas. \u201cAs crian\u00e7as pedem um iogurte, mas n\u00e3o posso dar\u201d, diz.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A casa \u00e9 min\u00fascula \u2013 sala, quarto e cozinha \u2013, mas os c\u00f4modos s\u00e3o limpos e enfeitados com os brinquedos das crian\u00e7as doados por igrejas. Luciene \u00e9 analfabeta. Abandonou a escola no segundo ano do ensino fundamental e s\u00f3 sabe desenhar as letras do pr\u00f3prio nome.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Resigna\u00e7\u00e3o e luta</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Aos 29 anos, Joice Aparecida dos Santos Ferreira desdobra-se para criar seis filhos. Os dois mais velhos s\u00e3o pr\u00e9-adolescentes e a mais nova tem 1 ano. Todas as crian\u00e7as t\u00eam nomes iniciados com K: Kau\u00e3, Kaio, Ka\u00edque, Karen, Kailane e Kauane.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br /><strong>Joice Aparecida dos Santos Ferreira enfrenta uma jornada duro de trabalho para criar seus seis filhos</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Todos s\u00e3o filhos do auxiliar de pedreiro Agnaldo Orlando Silva. Sem emprego fixo, ele vive de \u201cbicos\u201d. O casal separou-se e ela precisou ir \u00e0 Justi\u00e7a para obrig\u00e1-lo a ajudar no sustento dos filhos. Mas a jovem mostra-se resignada com suas duras condi\u00e7\u00f5es de vida. N\u00e3o se queixa do ex-marido omisso e elogia uma tia dele, empregada dom\u00e9stica em Copacabana, que a ajuda com dinheiro e mantimentos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br /><br /><strong>Fazendeiros certificam terras do tamanho de Vit\u00f3ria dentro de \u00e1reas ind\u00edgenas em 2023</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Governo Bolsonaro liberou o registro de fazendas em terras ind\u00edgenas, mas medida ainda n\u00e3o foi derrubada por Lula</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Metr\u00f4 s\u00f3 ouviu cerca de 300 pessoas para trocar nome de esta\u00e7\u00e3o Paulo Freire</strong><br /><strong>Pesquisa foi feita com base em pontos urbanos, diz Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Joice vive com as crian\u00e7as em um \u201cpuxadinho\u201d de dois c\u00f4modos nos fundos da casa da av\u00f3, Maria Ernestina Santos, de 70 anos, ex-empregada dom\u00e9stica que se alfabetizou depois de aposentada. A av\u00f3 diz que sofre ao ver as dificuldades da neta. \u201cEla n\u00e3o me pede nada, mas sei que passa muita dificuldade. Eu a ajudo disfar\u00e7adamente, pra n\u00e3o deix\u00e1-la com vergonha.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Os filhos maiores de Joice estudam na Escola Esp\u00edrita Joanna de Angelis, onde tomam o caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7am e fazem o lanche da tarde. Os menores est\u00e3o em uma creche municipal, onde tamb\u00e9m almo\u00e7am. A casa em que vivem n\u00e3o tem guarda-roupas, geladeira, mesa nem cadeiras. Apenas uma cama de casal e uma de solteiro, um velho arm\u00e1rio e um fog\u00e3o na cozinha. A \u00fanica distra\u00e7\u00e3o na casa \u00e9 uma pequena TV anal\u00f3gica de 14 polegadas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Para sustentar os filhos, Joice se desdobra: faz tr\u00eas faxinas por semana e borda vestidos e bermudas em casa, enquanto os filhos est\u00e3o na escola ou dormindo. Ela presta servi\u00e7os a uma costureira que paga R$ 2 por short bordado. O pastor da igreja que ela frequenta \u00e9 feirante e costuma lhe dar verduras.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela n\u00e3o imaginava assim seu futuro: \u201cPensava que seria muito melhor, mas farei tudo o que puder para que meus filhos tenham uma situa\u00e7\u00e3o melhor que a minha\u201d.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong>Moradores de Japeri recebem ajuda de religiosos</strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><br />Na Vila Santa Am\u00e9lia, um dos bairros mais desassistidos de Japeri, a Institui\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Joanna de Angelis mant\u00e9m uma escola com 125 alunos em hor\u00e1rio integral. Fundada em 1980 pela alagoana Terezinha Oliveira Lopes, de 86 anos, \u00e9 um projeto liderado por mulheres. As m\u00e3es dos alunos dedicam um dia do m\u00eas para ajudar na cozinha, limpar e cuidar das instala\u00e7\u00f5es. As salas s\u00e3o arejadas e enfeitadas com flores e cortinas coloridas. \u00c1rvores frut\u00edferas d\u00e3o sombra que amenizam a temperatura. O amplo refeit\u00f3rio \u00e9 usado pelos moradores para festas de casamento e anivers\u00e1rios.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Os alunos recebem uniforme e material escolar e t\u00eam caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e lanche da tarde. Al\u00e9m das mat\u00e9rias curriculares, aprendem m\u00fasica, inform\u00e1tica e costura. Os custos s\u00e3o bancados por integrantes do Centro Esp\u00edrita Joanna de Angelis, de Copacabana, e por amigos da fundadora. As fam\u00edlias dos alunos contribuem com 1 quilo de alimento por m\u00eas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Ela atribui \u00e0s entidades esp\u00edritas a decis\u00e3o de construir a escola. Tinha recebido dois lotes em heran\u00e7a e foi at\u00e9 l\u00e1 com a inten\u00e7\u00e3o de vend\u00ea-los. Ao ver que n\u00e3o havia nenhuma escola na regi\u00e3o, comprou mais dois lotes. \u201cEsta \u00e9 minha fonte de energia e minha raz\u00e3o de vida\u201d, resume.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Toda primeira semana de m\u00eas, o p\u00e1tio da igreja cat\u00f3lica Sagrada Fam\u00edlia, no bairro da Posse, munic\u00edpio de Nova Igua\u00e7u, tamb\u00e9m na Baixada Fluminense, \u00e9 tomado pela algazarra de cerca de 50 crian\u00e7as que s\u00e3o levadas pelas m\u00e3es para serem medidas e pesadas. Ao final, recebem suplementos alimentares e roupas doadas por fi\u00e9is. A equipe da Pastoral da Crian\u00e7a, entidade da Igreja Cat\u00f3lica, conhece as necessidades de cada m\u00e3e e faz o acompanhamento permanente das mais necessitadas.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00c9 o caso de Suelen Paulino de Assis, de 24 anos, que teve o quinto filho tr\u00eas dias antes do r\u00e9veillon, uma menina, registrada como Al\u00edcia. Ela mora s\u00f3 com os filhos em uma casa abaixo do n\u00edvel da rua. Quando chove, a \u00e1gua cobre os poucos m\u00f3veis e o fog\u00e3o. M\u00e3e e filhos trazem manchas de escabiose, um tipo de sarna transmitida por cachorros. Eles perderam o benef\u00edcio do Bolsa Fam\u00edlia em 2017 porque as certid\u00f5es de nascimento e as carteiras de vacina\u00e7\u00e3o foram levadas pela enchente e n\u00e3o providenciaram novos documentos.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A hist\u00f3ria de Suelen \u00e9 igual \u00e0 de muitas outras jovens pobres da Baixada Fluminense. Os cinco filhos s\u00e3o de quatro pais diferentes. Ela os cria sozinha, sem ajuda financeira de nenhum deles. Engravidou dos namorados no in\u00edcio dos relacionamentos e foi m\u00e3e pela primeira vez aos 15 anos. Como consegue alimentar os seus filhos? \u201cCom a ajuda dos outros, dou arroz e feij\u00e3o. \u00c0s vezes, as pessoas me d\u00e3o um litro de leite\u201d, conta. Verduras e legumes n\u00e3o fazem parte de nenhuma refei\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Tamb\u00e9m atendidas pela Pastoral, Marcela da Cruz Barbosa, de 25 anos, e Marcela Ferreira da Silva, de 36, vivem igualmente na extrema pobreza. A primeira estudou at\u00e9 o quarto ano do ensino fundamental e mora com o marido e tr\u00eas filhos em um barraco de t\u00e1bua e piso de terra batida. A outra tem cinco filhos e mora na beira de um val\u00e3o, na periferia de Nova Igua\u00e7u.</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">A outra Marcela \u00e9 analfabeta, tal como a sua m\u00e3e, que tamb\u00e9m mora na Baixada. \u201cSempre quis estudar e ser cuidadora de idosos, mas minha m\u00e3e n\u00e3o deixou. Ela dizia: se eu n\u00e3o pude ir \u00e0 escola, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o pode.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Anara completar os R$ 241 mensais que recebe do Bolsa Fam\u00edlia. O card\u00e1pio se limita a arroz com feij\u00e3o, mas ela diz que n\u00e3o falta esse b\u00e1sico para as crian\u00e7as. \u201cSou superm\u00e3e. Meus filhos est\u00e3o sempre em primeiro lugar na minha vida.\u201d</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><em>Fot\u00f3grafo: Ana L\u00facia Ara\u00fajo</em></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong><a class=\"external-link\" href=\"http://M\u00e3es de Japeri, na Baixada Fluminense, relatam suas lutas para criar os filhos em meio \u00e0 pobreza, ao desemprego e aos confrontos di\u00e1rios entre fac\u00e7\u00f5es de traficantes\" target=\"_self\" title=\"\">Texto Original Ag\u00eancia P\u00fablica</a></strong></p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">.............................................</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">\u00a0</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Fonte: Ag\u00eancia P\u00fablica</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \">Imagem: Ana L\u00facia Ara\u00fajo</p>\r\n<p style=\"text-align: justify; \"><strong><em><a class=\"external-link\" href=\"http://www.al.pi.leg.br/tv\" target=\"_self\" title=\"\">Edi\u00e7\u00e3o: Site TV Assembleia</a></em></strong></p>", "author_name": "", "version": "1.0", "author_url": "https://www.al.pi.leg.br/author/DAMATTALUCAS", "provider_name": "Assembleia Legislativa do Piau\u00ed", "type": "rich"}